Os vinhos da África do Sul

Houve um tempo em que os vinhos sul-africanos mal chegavam às prateleiras de baixo das mercearias. A maior parte do vinho produzido no país era diretamente destilada em aguardente. Hoje, a história está a mudar, porque os vinhos sul-africanos estão entre os mais belos vinhos produzidos no mundo. Não tendo quase castas autóctones (com exceção de uma!), ao contrário de Itália ou de Portugal, a África do Sul sempre utilizou sobretudo castas de origem francesa. A maior parte das suas regiões fica perto da costa e do Cabo, e beneficia da influência refrescante do oceano Austral. Esta situação, aliada à presença de montanhas muito altas em pano de fundo, cria condições que permitem produzir uma vasta gama de vinhos.
Para ter uma visão mais clara dos diferentes vinhos deste país, vamos abordá-los por castas ou, se preferir, por variedades de uva.
O Cabernet Sauvignon
O Cabernet Sauvignon sul-africano apresenta uma complexidade saborosa e uma bela potência, o que faz dele uma deliciosa alternativa aos vinhos de Bordéus. Imagine pimenta-preta, pimento assado aliados a bagas vermelhas, amora e ameixa. Encontrará magníficos exemplos nas regiões de Paarl, Stellenbosch ou Franschhoek. Pode também ser lotado com Merlot e Cabernet Franc.

O Syrah
Muito diferente daquele que conhecemos do Vale do Ródano, o Syrah da África do Sul está a ganhar popularidade graças aos seus sabores de frutos pretos especiados e de cereja preta, com uma riqueza semelhante à do chocolate. Como é cultivado em toda a África do Sul, apresenta um vasto leque de estilos. Encontrará vinhos mais finos e elegantes em regiões mais frescas, como Paarl, e vinhos mais ricos e intensos em regiões secas, como o Swartland.

O Pinotage
Eis a famosa casta autóctone e emblemática da África do Sul. O Pinotage, casta tinta sul-africana criada em 1925, é um cruzamento entre Cinsault e Pinot Noir. O nome Pinotage é um pouco enganador, porque se parece muito com Pinot Noir. Seria fácil supor que têm um sabor semelhante, mas não é o caso. Na verdade, esta uva sul-africana assemelha-se mais ao Syrah, ainda que o Pinotage seja tecnicamente aparentado com o Pinot Noir. Oferece sabores de framboesa e de mirtilo aliados a chocolate especiado e a tabaco. Os vinhos são muito mais densos, com mais álcool e mais untuosos do que o Pinot Noir.
Esta casta é um dos pilares dos nossos tintos frutados.
O Pinot Noir
Menos adaptado ao clima quente sul-africano, o Pinot Noir é plantado em pequenas quantidades nos locais costeiros mais frescos, onde pode amadurecer tranquilamente e exprimir plenamente os seus aromas varietais. O resultado é uma multitude de grandes vinhos cuja qualidade impressiona os apreciadores de todo o mundo. A grande maioria dos tintos de gama alta estagia em madeira (em parte em barricas novas), o que lhes confere aromas de pão torrado e especiarias.
O Chenin Blanc
Também conhecido por «Steen», é a casta mais difundida do país, tintas e brancas incluídas. Os produtores tiram hoje melhor partido da sua versatilidade e criam grandes vinhos, tanto secos como doces. As versões mais simples são vinhos fáceis, com sabores a fruta de caroço. No entanto, cada vez mais produtores (por ex.: Domaine Alheit) recorrem hoje a vinhas velhas conduzidas em vaso, que permitem obter sabores mais concentrados e complexos. O uso de carvalho não é automático, mas confere mais corpo e aromas de pão torrado.
O Sauvignon Blanc
Esta casta também está muito difundida, porque é elaborada em estilos muito variados. Os melhores vêm das regiões mais frescas e oferecem sabores muito puros de citrinos, de ervas frescas e de marisco (como o Southern Right - Sauvignon Blanc). Nas zonas mais quentes, é imperativo vindimar mais cedo para garantir uma acidez relativamente elevada e, portanto, frescura no vinho.
O Chardonnay
O Chardonnay é capaz de produzir vinhos de qualidade excecional, sobretudo nos locais mais frescos. Vinificado segundo as técnicas da Borgonha (fermentação em barrica e bâtonnage), dá grandes vinhos com carácter e complexidade. Encontra-se também num estilo estagiado em cuba de inox, que dá vinhos centrados na fruta e na frescura.

O Muscat d'Alexandrie
É também conhecido localmente por Hanepoot, mas não está tão difundido como as outras castas. Serve para elaborar vinhos doces de sobremesa a partir de uvas passificadas na videira e atacadas pela podridão nobre (como os Sauternes). Está na origem de um dos maiores vinhos doces do mundo: o Vin de Constance.
O Vin de Constance (por ex.: Grand Constance de Groot Constantia) é sem dúvida um dos vinhos míticos mais desconhecidos do mundo. Na sua época, era considerado um dos melhores vinhos produzidos. Napoleão Bonaparte bebia-o todos os dias durante o seu exílio na ilha de Santa Helena, para atenuar a solidão. A história deste vinho lendário remonta ao século XVII, quando Simon Van der Stel, segundo governador do Cabo, plantou a sua própria vinha. O resultado é um sumptuoso vinho doce de cor dourada e densa, com um nariz marcado por aromas de pinho e fumo, e de uma persistência impressionante.
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